quarta-feira, 9 de junho de 2010

capitulo final-todos os domingos deveriam ser santos

Último Capítulo
São pouco mais de 9hs da manhã quando abro a janela de meu quarto e deixo entrar a claridade morna do sol desse começo de outono de 2010. A sensação é apaziguadora, depois de um verão intenso e atribulado.
Estou viva, penso comigo mesma e, só eu posso escrever minha história daqui para frente. Nunca é um fim, é sempre um novo começo. Cinqüenta anos me levaram, agora quero levar os próximos até quando Deus me levar...
Me aliviei do incomodo de sangrar todo mês, me aliviei de querer acreditar em mentiras, aliviei da responsabilidade de criar filhos, porque cresceram, me alivio hoje da pressa de viver...
Hoje é um domingo de páscoa, um domingo perfeito para planejar os próximos. Ainda sonho com o amor maduro e pleno, ainda quero pintar muitas telas, escrever meus livros e acompanhar com olhos mansos, atentos, cheios de ternura e aceitação o destino de cada um que de alguma forma trouxe ao mundo... Dar boas vindas aos que virão, afinal, tudo é uma forma de oração
Nesse passaporte para o futuro, incluo acreditar mais na minha intuição, ser mais cautelosa nas escolhas, quem sabe, me disciplinar. Isso é difícil, porque o ser a disposição do ato de criar é um escravo de suas inspirações e o que elas menos têm é disciplina, são acúmulos de emoções pulsando que nos assombram no meio da noite, no meio do dia. São excitantes, posso até dizer, altamente sensuais, porque provocam sensações orgásmicas.
Já desenhei rugas por preocupações tolas, culpas, medos, mágoas indevidas. Já amei, desamei, questionei, busquei, cheguei até aqui. Tem bisturi e lazer pra tudo, mas pra alma.... só funciona a auto-cura. E, nesse processo de redimensionamento da vida, limpo a gaveta, lavo a alma, visto meu melhor vestido, delineio os olhos, seco os cabelos e por fim calço meu estupendo sapatinho de verniz. Estou pronta para pisar no futuro.
Sou a mesma menina da missa de domingo, com medo de pecar, sou a mesma garotinha da matinê tentando não pecar, a mesma santa que embala os filhos com a pureza do amor, a mesma profana que experimenta o pecado que tanto temia e chora aos domingos. Sou a que hoje entende que se não fossem os domingos para descansar, pensar, orar, que seria de nós? Quem disse que os domingos não são santos e não há redenção e santidade no perdão?